Fernando Pessoa não foi apenas um poeta. Foi também Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro — e tantos outros que inventou para pensar e escrever de maneiras diferentes.
Seus heterônimos não eram apenas pseudônimos, mas autores fictícios com personalidades, estilos e visões de mundo próprias. Entre eles, Caeiro talvez seja o mais desconcertante: um poeta que desconfia justamente daquilo que os poetas e filósofos mais gostam de fazer — procurar significados escondidos nas coisas…
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É justamente essa ideia que aparece em “O mistério das coisas, onde está ele?”, publicado em janeiro de 1925, no quarto número da revista Athena. Foi ali que Alberto Caeiro apareceu publicamente pela primeira vez, com uma seleção de poemas de O Guardador de Rebanhos.
O poema começa com uma pergunta aparentemente simples: onde está o mistério das coisas?
A resposta de Caeiro é desconcertante…
Estamos acostumados a procurar significados escondidos em tudo. Uma paisagem precisa representar alguma coisa. Um acontecimento precisa ter uma razão. Uma experiência precisa nos ensinar uma lição. Estamos sempre procurando a legenda escondida da vida.
Caeiro desconfia justamente dessa nossa necessidade de procurar um significado por trás de tudo. Para ele, “as coisas não têm significação: têm existência”. Uma árvore não precisa significar nada além de ser uma árvore. O rio não precisa guardar uma mensagem. As coisas podem simplesmente existir.
E talvez seja justamente isso que nos pareça tão difícil.
Porque vivemos tentando encontrar respostas, explicações e sentidos — como se aceitar que algo simplesmente é fosse pouco.
Talvez Caeiro esteja nos propondo uma experiência quase radical: e se nem tudo precisasse significar alguma coisa?
E se, por um instante, pudéssemos simplesmente olhar para o mundo sem exigir que ele nos diga alguma coisa?
O mistério das coisas, onde está ele?
Revista Athena, nº 4, Janeiro de 1925. Via escritas.org
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A árvore é árvore antes de qualquer palavra que a nomeie. Não pede licença para existir. Sim, nós é que fomos ensinados a perguntar: e depois? a perguntar: porquê? a perguntar: o que significa? Mas eu, que a olho, já não sou a mesma que ela. Entre nós há uma distância que nenhuma existência resolve sozinha. Talvez o sentido não esteja na coisa, nem em mim Talvez esteja no instante em que os dois se tocam, ali onde ainda não é linguagem mas já deixou de ser silêncio. Não há legenda. Há apenas o encontro breve antes que ela comece a se escrever.
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