🌸“Primavera” | Crônica de Cecília Meireles

Você já percebeu que a primavera chega enquanto estamos ocupados demais para perceber?

Uma flor aparece, os pássaros mudam o canto, a luz do dia ganha outra tonalidade. A natureza vai se transformando silenciosamente — e nós, quase sempre, seguimos correndo.



É desse encontro entre a beleza e a passagem do tempo que Cecília Meireles parte em sua crônica “Primavera” . Uma das grandes escritoras brasileiras do século XX, Cecília tinha um olhar especialmente atento para aquilo que é passageiro: a natureza, as estações, as pequenas mudanças que costumamos deixar escapar.

Mas sua primavera não é apenas uma celebração das flores.

Ao imaginar um futuro em que os seres humanos poderiam escolher quando a primavera deveria chegar, Cecília introduz uma pergunta curiosa: o que aconteceria se pudéssemos controlar completamente os ritmos da natureza?

Talvez perdêssemos justamente aquilo que torna a primavera tão especial: ela chega no seu próprio tempo. E dura apenas um instante.

A crônica também nos lembra que há coisas que não precisam ser eternas para serem importantes. Uma flor desabrocha para logo desaparecer. Uma estação passa. Um dia termina. E talvez seja justamente essa brevidade que nos peça mais atenção.

Enquanto tentamos controlar o tempo, a primavera simplesmente acontece.

Talvez seja esse o convite de Cecília: parar por alguns minutos e olhar.

A crônica completa está logo a seguir. E talvez, depois de lê-la, você também passe a perceber a primavera de um jeito um pouco diferente.

Boa leitura — e boas primaveras para todos nós. 🌼


Primavera

Por Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Cecília Meireles em Obra em Prosa – Volume 1, Editora Nova Fronteira, 1998, p. 366.


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