🌧️ Caso pluvioso | Poema de Carlos Drummond de Andrade

Chove. Chove de novo. E continua chovendo.

Depois de alguns dias assim, a repetição começa a alterar nossa relação com o tempo. A manhã parece igual à tarde, o hoje parece ontem e a pergunta inevitável aparece: será que essa chuva vai parar?



Carlos Drummond de Andrade tinha o talento de transformar situações banais em algo inesperado. Em “Caso pluvioso”, ele faz justamente isso: pega uma chuva que insiste em cair e leva essa ideia cada vez mais longe.

Com humor e criatividade, Drummond transforma o que seria apenas um dia molhado em uma situação absurda, quase surreal. A chuva deixa de ser paisagem e vira protagonista. Começa a ocupar tudo: os espaços, os pensamentos e até a imaginação.

Nas mãos de Drummond, vira poesia…

Portanto, chuva e poesia para todos nós! Boa leitura.


Caso Pluvioso

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.

A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura…
maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa… Nossa!

Não me chovas, maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!

Eu lhe dizia em vão — pois que maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,

que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

Eu lhe gritava: Para! e ela chovendo,
poças d’água gelada ia tecendo.

Choveu tanto maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa

e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.

E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de maria mais chuvavam,

de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançaram no seu curso,

e eis o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvido.

Os seres mais estranhos se juntando
na mesma aquosa pasta iam clamando

contra essa chuva, estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual).

Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d’água mais deliram,

e maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.

Os navios soçobram. Continentes
já submergem com todos os viventes,

e maria chovendo. Eis que a essa altura,
delida e fluida a humana enfibratura,

e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,

e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, maria! — e ela parou.

Carlos Drummond de Andrade em Antologia Poética, 1978 – Via escritas.org


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