E se pensar fosse uma brincadeira? | Crônica de Clarice Lispector

E se pensar fosse uma brincadeira?

A gente pensa o tempo todo. Para resolver problemas, tomar decisões, organizar a vida. Mas o que aconteceria se, por alguns minutos, simplesmente brincássemos de pensar?



É essa experiência curiosa que Clarice Lispector propõe em Brincar de pensar. Publicada em 19 de julho de 1967, no Jornal do Brasil, a crônica nasceu durante os seis anos em que Clarice manteve sua coluna de sábado no jornal. Ali, entre assuntos cotidianos e pensamentos aparentemente soltos, ela encontrou um espaço para transformar pequenas situações em perguntas sobre a vida.

Carteira de sócio do Sindicato dos Jornalistas da Guanabara (1968), emitida em nome de Clarice Gurgel Valente (seu nome de casada), com seu nome artístico e literário, “Clarice Lispector”, entre parênteses. (Foto: Reprodução)

Neste texto, pensar deixa de ser uma obrigação e ganha algo de jogo. Só que a brincadeira não é tão inocente quanto parece. Afinal, pensar profundamente pode nos levar até sentimentos que não sabemos explicar — ou sequer nomear…

Clarice percebe isso ao criar seu curioso “rol de sentimentos”: a saudade de alguém de quem já não gostamos, o desconforto diante de um carinho que não desejávamos, aquela estranha sensação de liberdade que surge no fim de uma tarefa qualquer. São experiências pequenas, contraditórias e profundamente humanas.

Talvez seja justamente por isso que a crônica continue tão atual: nem tudo o que sentimos cabe em palavras, e nem todo pensamento quer chegar a uma resposta.

O problema é que, às vezes, começamos a brincar de pensar e descobrimos que o brinquedo resolveu brincar conosco.

Enfim… é melhor não contar mais.

Vamos brincar de pensar com Clarice? 💭


Brincar de pensar

Por Clarice Lispector


A arte de pensar sem riscos. Não fossem os caminhos da emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem em pensar. O melhor modo é convidar apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras.

Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar.

Exige-se tanto de quem ouve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.

Bom, mas, quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos.

Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo.

Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.

Uma vez, por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de. . e foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar em caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.

Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu? Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.

LISPECTOR, Clarice. Brincar de pensar. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, ano LXXVII, n. 88, Caderno B, p. 2, 19 jul. 1967.


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