Você já parou para pensar por que sentimos uma necessidade tão profunda de viver com outras pessoas?
Criamos amizades, famílias, bairros, cidades e comunidades. Debatemos regras, organizamos movimentos, protestamos, cooperamos e, às vezes, passamos horas simplesmente conversando em volta de uma mesa.
Por mais que, nos dias de cansaço, a ideia de desaparecer em uma ilha deserta pareça tentadora, a verdade é que dificilmente suportamos a solidão por muito tempo. Do grupo de WhatsApp do condomínio às grandes decisões de um país, existe algo em nossa natureza que nos impele a viver em comunidade.
Mas por quê?
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Essa percepção está longe de ser nova.
Há mais de 2.300 anos, Aristóteles já procurava compreender por que os seres humanos vivem juntos. Discípulo de Platão e mestre de Alexandre, o Grande, ele não refletia apenas sobre ideias abstratas. Observava a natureza, as cidades, os costumes e perguntava o que significa, afinal, viver uma vida plenamente humana.

É em A Política que aparece uma de suas frases mais conhecidas — e também mais mal compreendidas:
Hoje, a palavra “política” costuma nos fazer pensar em eleições, partidos e governos. Mas Aristóteles falava de algo muito mais amplo. A polis era a cidade, o espaço da convivência humana.
Para ele, o que nos distingue dos outros animais não é apenas a inteligência, mas a capacidade de usar a palavra para discutir o justo e o injusto, o bem e o mal, o útil e o nocivo. É por meio da linguagem que construímos relações, compartilhamos valores e damos forma à vida em comum.
No trecho a seguir, Aristóteles leva essa ideia ao limite: quem consegue viver completamente afastado da sociedade, por nada precisar dos outros, seria um deus; quem é incapaz de qualquer convivência, uma fera. Entre esses dois extremos estamos nós, seres humanos, que só nos realizamos plenamente na companhia de nossos semelhantes.
Mais de vinte séculos depois, essa reflexão continua surpreendentemente atual. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil conversar, discordar sem hostilidade ou construir algo em comum.
Talvez seja justamente por isso que ainda vale a pena ouvir Aristóteles.
Portanto prepare seu café, desacelere o feed e leia o trecho abaixo com calma e atenção…
Boa leitura! ☕ 📖
O homem é um animal político
Texto de Aristóteles*
“A sociedade que se formou da reunião de várias aldeias constitui a Cidade, que tem a faculdade de se bastar a si mesma, sendo organizada não apenas para conservar a existência, mas também para buscar o bem-estar. Esta sociedade, portanto, também está nos desígnios da natureza, como todas as outras que são seus elementos. Ora, a natureza de cada coisa é propriamente seu fim. Assim, quando um ser é feito, de qualquer espécie que ele seja – homem, cavalo, família -, dizemos que ele está na natureza. Além disso, a coisa que, pela mesma razão, ultrapassa as outras e se aproxima mais do objeto proposto deve ser considerada melhor. Bastar-se a si mesma é uma meta a que tende toda a produção da natureza e é também o mais perfeito estado. É, portanto, evidente que toda Cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política.
[…]
Assim, o homem é um animal cívico [político], mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos. A natureza que nada faz em vão, concedeu apenas a ele o dom da palavra, que não devemos confundir com os sons da voz. Estes são apenas a expressão de sensações agradáveis ou desagradáveis, de que os outros animais são, como nós, capazes. A natureza deu-lhes um único órgão limitado a este único efeito; nós, porém, temos a mais, senão o conhecimento desenvolvido, pelo menos o sentimento obscuro do bem e do mal, do útil e do nocivo, do justo e do injusto, objetos para a manifestação dos quais nos foi principalmente dado o órgão da fala. Este comércio da palavra é o laço de toda sociedade doméstica e civil.
O Estado, ou sociedade política, é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. O todo existe necessariamente antes da parte. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as partes integrantes da Cidade, todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes e suas funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mãos e aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a aparência, sem a realidade, como uma mão de pedra. O mesmo ocorre com os membros da Cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou é um bruto. Assim, a inclinação natural leva os homens a este gênero de sociedade.”
*ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins Fontes, 1991. P. 3-5
E você?
Se é pela palavra que construímos a vida em comum, o que nossas conversas — nas redes sociais, em casa, no trabalho ou na política — revelam sobre a sociedade que estamos construindo?
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