O sublime absurdo de sofrer por 22 homens correndo atrás de uma bola… Freud explica?

De quatro em quatro anos (ou a cada quarta-feira de decisões do campeonato), o mundo inteiro parece entrar em um transe coletivo. Olhos vidrados na tela, unhas roídas, corações operando à beira do colapso e uma catarse generalizada que explode ao menor toque de uma esfera de couro na rede. Se pararmos para analisar friamente, com o distanciamento de um alienígena que acabou de pousar na Terra, a cena é quase cômica: milhões de pessoas à beira de um ataque de nervos por causa de 22 adultos correndo atrás de uma bola… 🤦

Por que nos importamos tanto? Por que o humor da nossa semana depende do pé direito de um jovem de vinte e poucos anos? Esse sublime absurdo do futebol mexe com as estruturas mais profundas da nossa psique. E, claro, se tem drama humano, angústia e paixão irracional envolvidos, a gente precisa chamar o mestre da investigação do inconsciente. Afinal… Freud explica?



Por que torcemos? Por que sofremos? 🥺💔

Para começar a desatar esse nó tático da nossa mente, precisamos entender que o futebol nunca foi apenas sobre o jogo. Ele é sobre o “nós”.

Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Sigmund Freud mostra que, ao fazer parte de uma multidão, não deixamos simplesmente de pensar por conta própria. O que acontece é algo mais sutil: passamos a nos identificar intensamente com um grupo e com um ideal compartilhado. No caso do futebol, o clube deixa de ser apenas uma instituição esportiva e passa a representar uma parte de quem somos. A camisa deixa de ser apenas um uniforme e se transforma em um símbolo de pertencimento.

Ao mesmo tempo, os torcedores passam a se reconhecer uns nos outros por meio desse vínculo comum. É como se, durante noventa minutos, milhares de pessoas compartilhassem a mesma esperança, a mesma ansiedade e a mesma alegria. A vitória do time parece confirmar algo sobre nós; a derrota, por sua vez, nos atinge de maneira surpreendentemente pessoal.

Freud descreve esse fenômeno ao observar que:

Talvez seja por isso que, diante de uma final de campeonato, aceitemos com tanta naturalidade pequenos rituais supersticiosos, acreditemos até o último segundo na virada impossível ou transformemos um clássico em uma batalha quase épica. Não porque deixamos de ser racionais, mas porque, naquele momento, a força da identificação coletiva fala mais alto do que a análise fria dos fatos.

Sofrer pelo time é, no fundo, sofrer por nós mesmos. É sofrer pelas nossas próprias buscas de pertencimento, reconhecimento e vitória em um mundo que, muitas vezes, nos nega tudo isso no dia a dia. O futebol nos oferece um espaço simbólico onde essas emoções podem ser vividas intensamente. Talvez seja justamente aí que possamos aproximá-lo de outro conceito importante de Freud: a sublimação. Nela, impulsos profundos — como a agressividade, a rivalidade e o desejo de afirmação — encontram uma forma socialmente aceita de expressão. Em vez do conflito real, noventa minutos de jogo. Em vez da guerra, a disputa em campo.

Talvez seja por isso que um gol, às vezes, pareça dizer muito mais do que o placar. Ele celebra, ainda que por alguns instantes, a sensação de pertencermos a algo maior do que nós mesmos.

Futebol, filosofia e a escola da vida…

Mas se Freud nos ajuda a entender as engrenagens psicológicas do pertencimento, é outro pensador que nos conforta sobre o significado existencial dessa loucura. Albert Camus, escritor e filósofo do Absurdo — e que, não por acaso, foi um excelente goleiro na sua juventude na Argélia —, costumava olhar para o gramado com uma reverência quase sagrada.

Em uma de suas frases mais célebres, Camus declarou:

Para Camus, a vida pode até não ter um sentido intrínseco (o puro absurdo existencial), mas o futebol oferece um microcosmo perfeito da experiência humana. Ali, no retângulo verde, aprendemos sobre solidariedade, sobre a injustiça do destino (quando o melhor time perde no último minuto), sobre o valor do esforço coletivo e sobre a necessidade de levantar após cada queda. O futebol abraça o absurdo da vida e o transforma em arte, em drama, em moral prática.

E a resenha continua… 🍻💬

Freud talvez explique por que sofremos. Camus, por sua vez, nos lembra que esse sofrimento pode dizer algo importante sobre a maneira como habitamos o mundo. Seja pela lente freudiana da identificação coletiva, seja pela visão camusiana da ética do gramado, o futebol resiste como o maior teatro a céu aberto da humanidade.

Dito isto, deixamos o seguinte questionamento para a sua próxima resenha: se a vida moderna nos exige tanta racionalidade, pragmatismo e boletos pagos, não seria o futebol um dos últimos espaços onde ainda nos é permitido viver o sagrado, o ridículo e o incompreensível?

Afinal, seria o futebol o único espaço onde a gente escolhe sofrer coletivamente de graça, assim, só por diversão?

Talvez seja justamente esse o sublime absurdo do futebol. Sofremos, sim, e choramos por 22 homens adultos correndo atrás de uma bola porque, no fundo, aquela bola é o pretexto mais bonito que encontramos para sentir que estamos vivos, juntos e compartilhando o mesmo destino trágico e glorioso de sermos todos… humanos!


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