Quando pensamos em inverno, o que nos vem à cabeça?
Se olharmos para a imagem que abre este post, a resposta parece óbvia: um chalé acolhedor, o calor de uma lareira acesa, o contraste entre o interior protegido e o exterior congelado pela neve. É a imagem perfeita de um aconchego invernal europeu. Dias cinzentos e pessoas recolhidas…
Durante muito tempo, aprendemos a imaginar o inverno a partir de imagens europeias. Não é difícil entender por quê. Grande parte da literatura, do cinema e das referências culturais que consumimos foi produzida em países do hemisfério norte.
Mas será que o inverno significa a mesma coisa em todos os lugares?
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Para o poeta brasileiro Jorge de Lima, a resposta é um sonoro não.
No Nordeste brasileiro, especialmente nas regiões marcadas pela seca, o inverno pode significar justamente o contrário daquilo que costumamos associar à estação. Em vez de escassez, ele representa abundância. Em vez de morte, renascimento. Em vez de isolamento, celebração da vida.
É essa inversão fascinante que encontramos no poema “Inverno”, publicado durante o período modernista. Com uma linguagem simples, musical e profundamente brasileira, Jorge de Lima transforma a chuva em símbolo de esperança.
Inverno
Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa…
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá f ora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha dágua,
café, cigarro,
cachaça, Zefa…
…rede gemendo…
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!
Poema “Inverno” de Jorge de Lima, via Escritas.org
Há algo profundamente filosófico nesse poema.
Enquanto muitas tradições literárias associam o inverno ao declínio, Jorge de Lima apresenta uma estação que anuncia o retorno da vida.
A repetição de expressões como “vai nascer tudo” funciona quase como um mantra. A chuva enche os rios. Faz brotar o verde. Alimenta os animais. Garante a colheita. Enche as barrigas. Enche os corações.
O inverno não aparece como ameaça.
Ele surge como promessa.
O poema nos lembra que a esperança não é uma ideia abstrata. Ela nasce das condições concretas da existência. Para quem viveu os ciclos da seca, a chegada das chuvas representa uma transformação real do mundo.
Por isso, ler “Inverno” hoje também é um exercício de descolonização cultural… Nem toda experiência humana cabe nas imagens que herdamos da Europa. Nem todo inverno é branco. Nem toda paisagem de frio é feita de neve. Há invernos de barro, de trovão, de rio cheio e de milho crescendo.
Jorge de Lima nos convida a olhar para o Brasil com olhos brasileiros.
E faz isso por meio de uma linguagem tipicamente modernista: direta, oral, musical e cheia de elementos da cultura popular. Não há palavras rebuscadas nem construções excessivamente complexas. O poema flui como conversa. Como canto. Como lembrança compartilhada entre vizinhos que observam o céu escurecer anunciando a chuva.
O que o inverno significa para você?
No fundo, o poema fala de algo maior do que as estações do ano.
Ele fala dos ciclos da própria existência.
Todos atravessamos períodos de seca. Momentos em que nada parece florescer. Mas também atravessamos épocas de chuva, quando a vida volta a ganhar cor e movimento.
Talvez seja por isso que “Inverno” continue tão atual. Porque nos recorda que nenhum ciclo dura para sempre.
E você?
Como o inverno se manifesta na região onde você vive? Qual é o significado dessa estação para você?
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