🌵 Os 70 anos de Grande Sertão: Veredas

Em 1956, João Guimarães Rosa ofereceu ao Brasil um livro que mudaria para sempre o modo como pensamos a literatura: Grande Sertão: Veredas. Setenta anos depois, a obra continua sendo um território de descobertas, uma travessia que desafia e encanta leitores de diferentes gerações.



Rosa, nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908, foi médico, diplomata e escritor, mas sobretudo um inventor de mundos. Sua genialidade está em transformar o sertão em matéria literária universal, criando uma linguagem que mistura erudição, oralidade e invenção. Não por acaso, críticos o colocam ao lado de nomes como James Joyce e William Faulkner, pela ousadia formal e pela profundidade filosófica de sua obra.

📖 O romance-rio e suas veredas

Posse de Guimarães Rosa na ABL, 1967. Foto via Wiki Commons

Grande Sertão: Veredas é narrado por Riobaldo, ex-jagunço que revisita sua vida marcada por batalhas, dilemas morais e pela enigmática relação com Diadorim. O romance não tem capítulos: é um romance-rio, um fluxo contínuo de palavras que arrasta o leitor para dentro de um sertão que é, ao mesmo tempo, cenário e personagem. A linguagem inventiva de Rosa cria palavras, resgata expressões regionais e desafia o leitor a se perder e se encontrar na língua. O sertão, aqui, é metáfora da existência, espaço onde se discutem o bem e o mal, o destino e a liberdade. Embora profundamente brasileiro, o livro fala de temas universais como amor, coragem e morte.

Mas reduzir Grande Sertão: Veredas apenas à sua trama seria injusto. O verdadeiro acontecimento do livro está na experiência da linguagem. Guimarães Rosa mistura regionalismos, palavras inventadas, expressões sertanejas e construções poéticas para criar uma escrita única, musical e profundamente viva.

É como se o autor não quisesse apenas contar uma história — mas fazer o leitor entrar no ritmo do sertão.

🌵 O sertão como metáfora da vida

Antes de Guimarães Rosa, o sertão aparecia muitas vezes na literatura brasileira como espaço regional, marcado pela seca, pela pobreza ou pela violência. Em Grande Sertão: Veredas, ele ganha outra dimensão.

O sertão rosiano é geográfico, mas também psicológico e espiritual. É lugar de batalhas externas e conflitos interiores. Por isso uma das frases mais conhecidas do romance permanece tão poderosa:

Riobaldo passa boa parte da narrativa tentando compreender o bem e o mal, Deus, o destino e a própria natureza humana. Em muitos momentos, o romance parece menos uma história de jagunços e mais uma profunda reflexão sobre a vida.

Algumas frases do livro atravessaram gerações justamente porque condensam essa dimensão filosófica em poucas palavras:

Essas vozes continuam ecoando porque falam de experiências universais: o medo, a dúvida, a coragem, o amor e a dificuldade de compreender a si mesmo. Rosa não oferece respostas simples. Oferece travessias…

“Travessia. O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

🐂 A viagem que ajudou a criar o romance

Em 1952, Guimarães Rosa decidiu fazer algo incomum: atravessar o sertão mineiro acompanhando uma boiada. Durante dias, cavalgou por veredas, ouviu histórias, anotou expressões populares e observou de perto o cotidiano sertanejo.

Guimarães Rosa durante suas viagens pelo sertão em 1952. Foto de Eugênio Silva, veiculada na revista “O Cruzeiro” em 21 de julho de 1952. Foto via Wiki Commons

As anotações dessa viagem se tornariam fundamentais para a criação de Grande Sertão: Veredas.

Mas Rosa nunca quis produzir apenas um retrato documental do sertão. Seu interesse era transformar aquela experiência em algo maior — um espaço simbólico onde convivem violência, religiosidade, amizade, desejo, medo e poesia.

Talvez por isso o sertão do romance pareça tão real e tão mítico ao mesmo tempo.

🎉 Um clássico que continua desafiando leitores

Mesmo depois de 70 anos, Grande Sertão: Veredas continua sendo um livro que desafia leitores. Não é uma leitura rápida nem confortável. É uma obra que exige tempo, atenção e entrega.

Mas talvez seja exatamente isso que a torna tão necessária hoje.

Num mundo acelerado, feito de textos breves e distrações constantes, Guimarães Rosa escreveu um romance que resiste ao imediatismo. Um livro que obriga o leitor a desacelerar e atravessar lentamente suas palavras.

E quando essa travessia acontece, o resultado costuma ser inesquecível.

Para quem ainda não conhece a obra, este aniversário de 70 anos é um excelente convite para entrar no sertão rosiano pela primeira vez.

E para quem já percorreu essas veredas, fica a pergunta: qual trecho, personagem ou reflexão mais marcou você?

Talvez a própria resposta esteja numa das frases mais bonitas do romance:

Talvez seja por isso que Grande Sertão: Veredas continue tão vivo depois de sete décadas. Porque, como a própria vida, o livro nunca termina de dizer o que tem a dizer…


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