“O mundo infinito” | Texto de Giordano Bruno

Imagine viver em uma época onde dizer que o universo é infinito não era apenas uma “opinião polêmica”, mas um passaporte direto para a fogueira. Esse foi o destino de Giordano Bruno (1548–1600), o frade dominicano que ousou ultrapassar os limites do céu medieval enquanto o resto do mundo ainda se sentia seguro dentro de suas esferas de cristal.



Existe um tipo raro de pensador que não apenas discorda do seu tempo, mas implode os limites dele. Bruno era essa figura. Enquanto a humanidade tateava no escuro tentando entender o lugar da Terra no cosmos, ele já visualizava um universo sem paredes, sem centro e sem fim — um organismo vivo, atravessado por mundos incontáveis. Uma ideia fascinante hoje; um ato suicida no século XVI…

Mas o que torna a leitura de Bruno essencial não é apenas a sua astronomia visionária. É a vertigem… Ler seus textos causa aquela sensação estranha de que o chão das certezas começa a ceder. No fundo, quando ele fala de infinitude, ele está nos falando sobre liberdade. Sobre romper estruturas e confrontar a eterna arrogância humana de acreditar que ocupamos o centro de qualquer coisa — seja no espaço, na política ou na posse da verdade.

No trecho a seguir, extraído de sua obra fundamental Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos, Bruno não apenas desafia os intelectuais de sua época — a quem ele chama, com uma ironia ácida, de “papagaios na jaula” — como nos convida a uma libertação mental radical. Ele nos mostra que não há confins que nos prendam e que a matéria se renova eternamente em uma dança cósmica sem limites.

Este não é um texto para quem busca conforto. Ainda bem. Há autores que ajudam a organizar o mundo; Bruno parece interessado em nos mostrar que ele sempre foi muito maior do que nossas certezas conseguem suportar…

Boa leitura!📖☕🧐


O mundo infinito

Por Giordano Bruno

Não há confins, términos, limites ou muralhas que nos rondem e subtraiam a infinita quantidade de coisas. Daí que a terra e o seu mar sejam fecundos; daí que seja perpétuo o brilho do sol e ministre eternamente alimento aos fogos vorazes e líquido aos mares diminutos, porque do infinito voltam a nascer sempre novas quantidades de matéria.

Quem melhor o entenderam foram Demócrito e Epicuro, acreditando que tudo se renova e se recompõe ao infinito, que quem se esforça por salvar a permanência do universo eterno, para que o mesmo número siga sempre o mesmo número e as mesmas partes se transformem sempre nas mesmas. Ponham, então, remédio, senhores astrônomos, junto com seus físicos, naqueles vossos círculos que descrevem as nove esferas móveis imaginárias, com as quais chegais a aprisionar a aprisionar vosso cérebro, de forma que não me pareceis mais que papagaios na jaula, quando os vejo andar aos saltos, errantes, dando voltas e girando dentro daquilo.

Sabemos que um imperador tão grande não tem trono tão sem gosto, solo tão pobre, tribunal tão estreito, corte tão pouco numerosa, efígie tão pequena e débil como para que um fantasma os engendre, um sonho os quebrante, uma loucura os preserve, uma quimera os destrua, uma calamidade os diminua, um delito os manche e um pensamento os restabeleça; para que como com um sopro se encha e com uma abocanhada se esvazie; se não que é um retrato grandioso, uma imagem admirável, uma figura excelsa, um vestígio altíssimo, uma representação infinita de um infinito representado e um espetáculo apropriado para a excelência e a eminência de quem não possa ser entendido, compreendido ou aprendido…

*GIORDANO BRUNO, em Sobre o universo infinito e os mundos.

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