Elizabeth Bishop, poeta americana nascida em 1911, viveu entre geografias e afetos. Passou 15 anos no Brasil, em Petrópolis, onde escreveu parte de sua obra mais sensível. Uma dessas joias é o poema One Art — traduzido como A arte de perder — escrito em 1976, já no fim de sua vida.
Neste poema, Bishop transforma a dor da perda em exercício poético. Com estrutura de vilanelle (forma fixa e repetitiva), ela enumera perdas cotidianas — chaves, casas, cidades — até chegar à mais íntima: a perda de um amor. O tom é contido, quase estoico, mas a repetição da frase “a arte de perder não é nenhum mistério” revela um esforço desesperado de convencimento. Como se, ao repetir, ela tentasse domesticar o inevitável.
O poema nasceu num contexto de luto e solidão. Bishop havia perdido sua companheira brasileira, Lota de Macedo Soares, e enfrentava o peso de uma vida marcada por deslocamentos e ausências. One Art é, portanto, mais do que um poema sobre perdas — é uma tentativa de dar forma à dor e, quem sabe, torná-la suportável.
“A arte de perder” é um manual poético sobre a perda, escrito com precisão cirúrgica e emoção contida. Filosofia pura em forma de verso…
A arte de perder
A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio da mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (escreve!) muito sério.
Elizabeth Bishop
Poemas escolhidos, tradução de Paulo Henriques Britto
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