O que é liberdade? | Texto de Merleau-Ponty

Maurice Merleau-Ponty, um dos grandes filósofos franceses do século XX, desafiou a separação entre sujeito e objeto, assim como a dicotomia entre liberdade e determinismo. Para ele, a liberdade humana não é um ato isolado, mas se manifesta sempre dentro de uma situação concreta – histórica, corporal e social. No texto abaixo o autor nos convida a refletir sobre a liberdade não como uma ruptura com o mundo, mas como um engajamento profundo que possibilita a transformação…


O que é liberdade?

Por Merleau-Ponty

O que é então a liberdade? Nascer é ao mesmo tempo nascer do mundo e nascer no mundo. O mundo está já constituído, mas também não está nunca completamente constituído. Sob o primeiro aspecto, somos solicitados, sob o segundo, somos abertos a uma infinidade de possibilidades. Mas esta análise ainda é abstrata, pois existimos sob os dois aspectos ao mesmo tempo. Portanto, nunca há determinismo e nunca há escolha absoluta, nunca sou coisa e nunca sou consciência nua. […]


A generalidade do ‘papel’ e da situação vem em auxilio da decisão e, nesta troca entre a situação e aquele que a assume, é impossível delimitar a ‘parte da situação’ e a ‘parte da liberdade’.

[ … ]

Assim, poderíamos continuar sem fim a análise. Escolhemos nosso mundo e o mundo nos escolhe. […] A escolha que fazemos de nossa vida sempre tem lugar sobre a base de um certo dado. Minha liberdade pode desviar minha vida de sua direção espontânea, mas por uma série de deslizamentos, primeiramente esposando-a, e não por alguma criação absoluta.


Todas as explicações de minha conduta por meu passado, meu temperamento, meu ambiente são, portanto verdadeiras, sob a condição de que os consideremos não como contribuições separáveis, mas como momentos de meu ser total do qual é-me permitido explicar o sentido em diferentes direções, sem que alguma vez se possa dizer se sou eu quem lhes dá seu sentido ou se o recebo deles. Sou uma estrutura psicológica e histórica.


Com a existência recebi uma maneira de existir, um estilo. Todos os meus pensamentos e minhas ações estão em relação com esta estrutura, e mesmo o pensamento de um filósofo não é senão uma maneira de explicitar seu poder sobre o mundo, aquilo que ele é. E, todavia, sou livre, não a despeito ou aquém dessas motivações, mas por seu meio. Pois esta vida significante, esta certa significação da natureza e da história que sou eu, não limita meu acesso ao mundo, ao contrário ela é meu meio de comunicar-me com ele.


É sendo sem restrições nem reservas aquilo que sou presentemente que tenho oportunidade de progredir, é vivendo meu tempo que posso compreender os outros tempos, é me entranhando no presente e no mundo, assumindo resolutamente aquilo que ou por acaso, querendo aquilo que quero, fazendo aquilo que faço que posso ir além. Só posso deixar a liberdade escapar se procuro ultrapassar minha situação natural e social recusando-me em primeiro lugar assumi-la, em vez de, através dela, encontrar o mundo
natural e humano.


MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção, São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 608-611


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