Poucos versos na literatura brasileira despertam tanta ternura quanto os de “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu. Publicado em 1859, o poema é um verdadeiro hino à infância — tempo de pureza, liberdade e sonhos que o tempo não traz de volta.

Casimiro de Abreu (1839 – 1860), um dos nomes mais sensíveis do romantismo brasileiro, viveu apenas 21 anos, mas deixou uma obra marcada pela saudade, pelo lirismo e pela musicalidade. Em “Meus oito anos”, ele transforma memórias em poesia, tocando gerações com sua simplicidade e emoção. Mais de 160 anos depois, seus versos ainda ecoam em salas de aula, corações nostálgicos e leitores em busca de beleza.
Em tempos acelerados, sua poesia nos convida a desacelerar e lembrar de onde viemos… O poema também dialoga com questões bem contemporâneas: a idealização do passado, o desejo de retorno a tempos mais simples, e a valorização da memória afetiva. Em tempos de aceleração digital e crises existenciais, a saudade de Casimiro soa como um convite à pausa e à contemplação.
Meus oito anos
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a atirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
…………………………..
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
Meus oito anos,Casimiro de Abreu – Via Jornaldepoesia
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