Lição de filosofia: o Uno e o múltiplo
(Diálogo entre Parmênides e Sócrates)
Por Platão*
Parmênides – E que farás da filosofia? Para onde te voltarás na ignorância de todas as coisas?
Sócrates – Por enquanto, não vejo saída.
Parmênides – É que começaste cedo demais, Sócrates, antes de exercitares, como convém, a definir o belo, o bem e o justo, e assim todas as ideias. Observei isso mesmo há dois dias, ao te ouvir dialogar com o nosso amigo Aristóteles, aqui presente. Pois fica sabendo que é belo e divino o entusiasmo com que atiras a essas discussões. Enquanto és moço, exercita-te mais nessas práticas consideradas inúteis pelo vulgo e que dele receberam o nome de parolagem. De outra forma, a verdade te escapará.
Sócrates – E em que consite, Parmênides, semelhante exercício?
Parmênides – O que ouviste agora mesmo de Zenão. Aliás, uma de tuas objeções me alegrou sobremaneira, ao lhe manifestares teu desacordo de que a investigação não se dispersasse nos objetos percebidos pelos olhos nem somente neles se aplicasse, para concentrar-se no que é aprendido apenas pelo pensamento e pode ser considerado como ideia.
Sócrates – Com efeito; não me parece difícil demonstrar por esse meio que os seres são semelhantes e revelam outras oposições.
Parmênides – E com razão. Porém uma coisa ainda precisarás fazer. Não basta aceitar a existência de determinado objeto e considerar as consequências de semelhante suposição. Longe disso; precisarás, ainda, admitir a não-existência desse mesmo objeto, se te importa exercitar-te como convém.
Sócrates – Onde queres chegar?
Parmênides – Caso te declares de acordo, exemplifiquemos com aquela hipótese de Zenão: se existir o múltiplo, quais serão as consequências tanto para ele, em relação com ele mesmo e com o Uno, como para a unidade, em relação com ela mesma e com o múltiplo? E no caso de não haver múltiplo, voltar a considerar as consequências para a unidade e para o múltiplo, assim em suas relações recíprocas como nas de cada um consigo mesmo. Desenvolve idêntico esforço partindo da hipótese de que a semelhança existe ou não existe, sobre as consequências desses pressupostos, tanto para os termos admitidos como para outras coisas, nelas mesmas e em suas relações recíprocas. Igual raciocínio valerá para dessemelhante, para o movimento e o repouso, para o nascimento e a destruição, o ser e o não-ser em si mesmos. Numa palavra: para tudo que supuseres como existente ou não existente, ou como determinado de qualquer modo, será preciso examinar as consequências resultantes. Primeiro, para o próprio objeto, e, depois, relativamente aos outros: começarás por um, a tua escolha, depois vários, e por último todos. A mesma coisa farás com esses outros, tanto em suas relações recíprocas como com o objeto admitido de cada vez por ti como existente ou não existente, caso queiras exercitar-te com perfeição e, assim, discernir a verdade na sua plenitude.
PLATÃO em Parmênides, Coleção Os Pensadores.
Você, pessoa linda💕 que chegou até aqui e está lendo isso, se você quiser e puder contribua para que o Farofa Filosófica continue firme e forte! Seu apoio é fundamental para que possamos cobrir os custos de manutenção do blog e criar novos conteúdos… Selecione um dos valores abaixo e conclua sua doação:
Você encontra outras maneiras de realizar sua doação, clicando aqui.
Obrigado pelo seu apoio!🎈🎉
Saudações filosóficas a todas e todos!
Siga nossas redes sociais e, não se esqueça de se inscrever na nossa newsletter na versão gratuita ou premium:
Navegue pelas nossa TAGs:
Artes Brasilidades Coleções Educação Filosofia Geografia Gênero e Sexualidade História Literatura e poesia Psicologia e Psicanálise Sociedade e Cultura Sociologia Teatro Terra e território
#farofafilosofica #filosofia


bom
CurtirCurtir